http://dudaxavierfilho.blogspot.com.br/2015/11/o-chaveiro-da-chave-de-minha-casa.html

O chaveiro da chave de minha casa

 

Ela não é disso.

Estava bem acordada. Respondia uma mensagem seguida da outra sem fazer longos intervalos de tempo.

Ela sempre fez longos intervalos de tempo entre visualizar e responder.

Eu nunca soube se isso seria um tipo de charme, algo para me irritar.

Bem, isso não me irrita mais.

“Não quero mais te ver ”.

Tá.

Eram duas horas da madrugada.

Ela dorme cedo. Ela manda mensagens de boa noite muito antes do meu sono acontecer.

Faz tempo que ela não diz boa noite.

Eu estava com sono.

“Devolve minhas músicas ”.

Foi um presente no nosso primeiro ano juntos, meu aniversário.

Adoramos as mesmas músicas.

Eu ouço no carro; ela tem toda a lista no celular.

É mídia digital. Não tem essa de devolver.

Me soou estranho.

Não lembro. Dormi.

O pendrive é o chaveiro da chave que abre a porta de minha casa. Levantei tarde para sair.

Estou morrendo de saudades dela.

 

Sangrei sem tempo para lavar o lençol

Não vai dar

Não vai dar

Não sei

Você não vai entender. Eu não vou explicar

Então não trocamos mais mensagens

Saí. Não teria outro jeito, ainda era quinta-feira

Aproveitei para comprar algum remédio

Buscopan, por favor

Tem dias que não dá. Mas tem outros

No elevador

Nossa que cor bonita

Sim. Dos meus braços. Notou o bronzeado que peguei no sol

Mas o dia não estava sendo igual a “outros dias”. Enfim, já foi

Pedi um sorvete petit gateau antes de ir para casa. Talvez eu vá para aula

Tocou o celular

Não

Não atendi. Dei um tempo. Mandei mensagem

Me ligou? Não vai dar. Tenho aula

Deixei de lado o aparelho na mesa. Avistei alguém

Alguém!

Olhou. Acenei

E aí, tudo bem? O que está fazendo por aqui?

Abracei com força. Gente perfumada é outra coisa. Uma delícia

Foi muito bom te ver!

Foi mesmo

Fui para o ponto de ônibus. Não sei. Fui para aula

Saco

Não gosto de remédios. Tomei outro

Desbloqueie a tela. ? Nenhuma mensagem. Resolvi escrever

Estou indo para aula e depois vou para casa. Vamos marcar outro dia. bem? Quando chegar te aviso. ? Beijo

Tomei um banho. Fui deitar. Mas o lençol lá, manchado. Tirei. Então o colchão, manchado. Deite

Direto no colchão

Não respondeu, não mandou beijo

Não gosto que me deixe falando só, ok? Responde. Já cheguei. Tudo bem?

TEXTO ‘PICARETA’

– Pô, cara! Mas ao menos me deixa mostrar o que é

– Está bem, está bem. Eu sei. Não se zangue. É que você vai ficar falando um monte de merda

– Merda, merda. Afinal, por que estamos aqui? E agora já estamos, vamos conversar

– Hmm. Garçom! Uma água com gás e limão, por favor

– Rodela ou espremido?

– Tanto faz. Espremido, por favor

Saca o celular do bolso. Busca algo em algum lugar. Lê.

Da faixa para o asfalto público – das implantações de ciclo-faixas

A implantação das ciclo-faixas é tão concreta quanto é concepção da diversidade no asfalto. Um espaço público.  

Novas faixas e, então, novas possibilidades. Uma alternativa em prol do movimento que pouco flui e muito consome o tempo do cidadão segurado, em lei, do direito de “ir e vir”.

Chega a água. O garçom abre a garrafa, serve no copo com limão.

– Está servido?

– Quero, sim

– Garçom, outro copo, por favor. Mais uma água

– Limão?

– Sem limão

– Sem limão!

É na principal avenida, cartão postal, da cidade de São Paulo (Av. Paulista) que a novidade se torna estratégia promocional.

Meios midiáticos e redes sociais on-line de compartilhamento anunciam, provocam, convidam e dão visibilidade para locomoção de um veículo a muito tempo marginalizado, desvalorizado, esquecido em garagens ou quando nas ruas, correndo riscos devido a circulação no pouco espaço do meio fio e ou nas calçadas arriscando a circulação de transeuntes.

Portanto, o incentivo do uso da bicicleta em tempos de crise da mobilidade urbana, é uma ação positiva. É benefício ambiental. É transporte de baixo ou pouco custo. É a possibilidade do movimento alcançado graças aos quilômetros de vias exclusivas disponíveis.

– Faixas, faixas. Alguma coisa nessa palavra não me soa bem. Fora que, em dia de chuva como seria?

– Não sei

– Olha aí. Está vendo? Não falei?

– Hmm

Pequenos goles nos copos d’água. Do restaurante passaram a consumir apenas gelo.

DO SONHO

Entra pela porta da sala.

Aparece ao menos uma vez ao dia. Almoça ou janta ou café e pão com manteiga.

É um dos poucos lugares onde ainda se espreguiça.

“Boa tarde”.

“Boa tarde”.

O diálogo acontece na cozinha. Já é hora do chá.

“Tem café pronto, fresquinho”.

Ele repara as panelas no fogão, as frutas na mesa, deve haver suco na geladeira.

“Ficou sem comer até agora? ”.

“Não. Eu comi uma coisinha por aí”.

“Veio uma moça, logo cedo, deixou uma criança comigo, pediu que eu te entregasse. Ela disse ser seu filho”.

“Que moça? Que filho? ”.

“Não sei. Ela tinha o rosto coberto. Pude apenas ouvir sua voz e ver suas mãos delicadas. Tinha um lindo anel no dedo. Uma moça. Deixei a criança em seu quarto”.

“Como era a voz? ”.

“Eu não sei dizer”.

Lembrou da moça das Minas Gerais.

“Eu não posso ter filhos”.

Uma criança atrapalharia o promissor futuro todo pensado por ela.

Ele pegou uma banana no balcão, saiu pela porta da cozinha, abriu a porta de incêndio onde no vão entre a porta e a escada, construiu dois cômodos, sua casa.

Entrou no apertado primeiro cômodo. A curiosidade foi quem primeiro viu o bebê. Estava enrolado em cobertores azuis, na cama, no cômodo seguinte.

Encostou a porta que divide os dois cômodos, sentou no banquinho do cômodo um. Ainda podia ver os olhos fechados do bebê dormindo. A criança nunca tinha visto a figura de seu pai, nunca havia visto a fisionomia dele. Melhor que continuasse sem ver. Pensou como faria isso. Pensou para quem entregaria a criança.

A criança começou a chorar. Ele notou que ela estava na beirada da cama, mexia as pernas e os pequenos bracinhos. De tanto mexer caiu no chão.

Ele colocou a criança em seu colo e nesse momento o coração dele ardeu em chamas. Mas a criança chorava e o choro dizia palavras que ele odiava, que o deixavam completamente irritado.

“Fraco, fraco, fraco, fraco”.

Como seria possível um pai sem uma mulher?

Irmão mais velho

Ah, menino, relaxa. Não te preocupe tanto. Vai, sim, dar tudo certo. Você vai gostar. Eu sei.

Não, não, não. Não se assuste. Calma.

Sei dos teus medos. Isso de espíritos, sonhos do sobrenatural, tudo balela para nos assustar. Pois dessa maneira podem nos controlar com mais facilidade. O medo vende.

Fica tranquilo. Mesmo que existam coisas assim, simplesmente deixamos para lá.

Tem tantas outras coisas boas para fazermos. É tanta que na verdade eu ainda nem sei.

Então, não precisa se assustar. Isso é só o nosso, quero dizer, meu pensamento. Pensei, lembrei de você agora pouco, resolvi aparecer para bater um papo.

Nesse momento, enquanto penso, estamos, estou muito bem acompanhado. Ela é linda. Vai ver.

Vamos assistir uma peça de teatro proibida para menores de dezoito anos. Nada do que você com 14 anos já não esteja vendo. Mas agora você começa a entender de uma maneira diferente. Tem arte, tem política, tem critica nos contos de um doido chamado Sade, Marques de Sade.

É cara, existe, sim, vida além desse nosso bairro, desse prédio, desse apartamento.

E essa vida já está acontecendo, graças a Deus, enquanto nós, você está aí no nosso antigo quarto, na casa dos nossos pais. Casa de nossa mãe na verdade.

Ainda sentimos muita saudade do velho, então, vá com calma no choro. Ainda vai ter muito tempo e momento para chorar, sorrir saudade.

Hoje, aqui, é sábado, assim como também é noite de sábado aí para você. É, nessa nossa idade, sua idade, mamãe não nos deixa sair muito. É uma merda, eu sei. Eu sei.

Você vai entender. Ela tem medo. Pois, na tevê só falam de violência. E, claro, como não seria?, as ruas estão vazias depois das seis, os muros bloqueiam a convivência, a oportunidade não é para todos e todos querem ter. Ela tem medo que você faça coisas erradas. E aí, ela sem o marido, sem o papai, não saberia bem como agir. Ela sofre tanto quanto nós desde a morte dele.

Não deixe de fazer as cosias que tem vontade, mas tenha calma com coisas que ainda não nos permitem fazer.

Leia livros.

Você já gosta de ler que eu sei. Já tem um ano desde que leu “As mil taturanas douradas” do Furio Lonza com ilustrações do Angeli (o cartunista das histórias em quadrinhos que tanto curtimos ver no jornal).

Volta para livraria, como naquele dia, lembra?, e procure mais coisas desses dois. Ou busque por escritores, desenhistas que estão nessa mesma linha.

Não tenha vergonha. Você realmente não liga para futebol. Nem precisa ligar.

Cara, te amo, desejo seu bem, então, ouça, desde já (se é que pode me ouvir), volte a ler. Vai adiantar muita coisa para nós, para mim. Nós no dia de hoje, atual. Sabe?

Se bem que … quer saber?, continue assim, você está indo muito bem.

Coce a barba

Nem todos pensam. Faça.

Pois, pensar? Complicado.

Entender então, difícil.

Não chame atenção.

Vista isso: camisa, calça, sapato e, por favor, o cabelo: mantenha-o sempre cortado.

Não misture os gêneros.

Se feminino, saia.

Entre às 7, deixe às 17 horas da tarde.

É simples.

Não precisa coçar a barba.

Pare.

Melhor. Tire a barba.

Está tudo aí na cartilha.

Mas, veja, nem precisa ler.

É só ver.

Não me olhe com essa cara.

Não complica.

Não invente.

É … segurança.

Não complicamos para você.

Cotidiano outro

Eu tinha acabado de deixa-la em casa. Tivemos uma noite de jantar com vinho, à luz de velas. Bela noite, Bela.

Voltei dirigindo um namoro de olhar atento nos apartamentos de janelas abertas, luzes acesas.

Na rua, tarde, ainda cedo de pares beijoqueiros em pontos de ônibus, cedo dos grupos de amigos ‘altos’, saindo de casas de shows.

Eu movimentava um cigarro, que não fumo, regendo o pensamento ao som de jazz. Tocava, na rádio, um saxofonista na janela última de um prédio ao fundo.

Foi incrível ver a cidade mágica. Logo eu que, tenho o olhar sempre tão teimoso, que vejo apenas a realidade amarga.

Foi conta dela. Uma alegria sem rotina. Juntos outra vez.